quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

BRINCAR DE SER


Por que brincar de ser mulher
Quando eu posso ser uma onça, uma pedra, um peixe?
Um feixe de luz que atravessa a janela
Ou uma bela donzela inglesa do século passado
E até um viking viado navegando o Canal do Panamá?

Por que brincar de ser homem
Quando qualquer meia luz de lua cheia
Que cai por cima de mim
Me transforma em lobisomem drag queen?
E se não visto nenhuma fantasia
Só me resta a nudez escancarada
peluda e pelada?

Quem eu sou não sei quem fez
Quem vou ser não tem quem brinque
Vou fantasiar toda a minha nudez
Pra poder tomar uns drinks 
Em uma exposição censurada.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

SOLIDÃO


Mesmo na soma de todas presenças
Ainda te sinto no fundo do peito
E emerges veloz quando soam minhas perdas
E inventas tristezas
Belezas já murchas

Meu enlace de fibras é tecido poroso
Dele escapa
Odioso
Tudo que agarro e prendo
E se me desentendes da própria verdade
Eu mesmo me desinvento em suas armadilhas

Me desacompanhas na sua presença
E deitas extensa na porta de casa
E não se sai
E não se só
E não se se
Mas só se sabe de um só ser
Se sente solidão.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

SETE PALMOS


Eu te enterrei pensando que eu marcava
Naquele lugar o xis do mapa do tesouro
Eu te enterrei pensando que eu plantava
Em terra fértil uma semente que ensaia ser broto
Mas na verdade você era mina
Na terra envenenada dos meus pensamentos
Cavar fundação tão funda eu sei que foi difícil
E nunca deu em edifício
Esse é o meu tormento
Será que tudo que eu cavo no fim desova em cova?
Sete palmos trás da terra
Debaixo do chão
Eu te enterrei e eu sabia que enterrava    
Com o meu corpo lá no fundo em um abraço de caixão.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

TELACÉU


Celulares pontilhistas
Listas de mercado online
Lã de laços fracos, frouxos
Rosas, minhas antenas rijas
Giram em transla e rota e transe
Troncos sem raiz e ramos constam
Corpos de fibra óptica rara
Raso de poço fundo espelha
Pelos de se sentir o mundo cortam
Cores de corar o cosmo em coro
Cura de doenças de proveta
Gametas novos do velho fim.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

TIJOLOS NA LAJE DA LÍNGUA


A boca baba
palavra molhada
Mascada na boca
Água no feijão
A bola de meia
A bola do baba 
Embola um verbete
Sem ter confusão
No som do sotaque
O batum do batuque
Com mais d'um trambique
A sentença na mão
Os neologismos
São novos tijolos
Na laje da língua
Linguagem que pulsa
Tum
Tum 
Tão.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

CASULO


Peito
Corpo
Quarto
Apartamento
Prédio 
Condomínio

Desfaço em camadas
Protejo em paredes
Estou em reformas.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

OCASO


Unhas compridas arranham a carne macia
Cores vermelhas arrancam a tarde vazia
Arrancam a tarde do dia

Se por do sol do sofá da sala
Me por eu só no teu seio céu
Enrubescer
Tenro como um som de Rubel
Ao meu bel-prazer

Diluir no oceano laranja
O meu amar solar
Sem lar
Alojado bem firme em você

Um caso, acaso, ocaso.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

BICHO


O bicho, na ponta da caneta, sangra
O bicho-eu que não fala e que nem anda
O bicho-monstro que samba
Na minha cabeça
Corda bamba
Com seu salto alto afiado
O bicho-feio, firme, forte e armado
Sabe de cor e salteado
Recitar o meu silêncio
O bicho que não marca calendário
E nem vem de horário
Marcado
Só marca a mente
Agita o peito
E feito Midas às avessas
Tudo que toca é defeito
O bicho que não move
O bicho que não vive
O bicho que não ama
O bicho, na ponta da caneta, sangra.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

SETE SÉTIMOS


Sete sétimos de mim
Querem você
Cê tem noção do que isso significa?
Se tento tanto, acabo em prantos
E no final a conta toda se complica
Nessa fração, eu me desmancho
Parte em parte, partiu o meu querer
Mas oito oitavos
E nove novos
De mim
Querem
Um
Inteiro
De
Você.

domingo, 20 de agosto de 2017

GOSTAR NUM SUSSURRO


No meio da praça uma estrela
Por cima de ti minha perna
A torre da igreja observa
Entre eu e você uma fresta
Por onde o vento frio atravessa

Pra gostar num sussurro
E se tiver um susto
Eu saio no murro
Levanto e corro
Ou brado um urro pedindo socorro

Do homem dos dentes de prata
Espero da língua uma faca
-Revejo na mente os meus planos
Reconto nos dedos os meus anos-
E a mão trás das costas disfarça
E de supetão ele saca

Segura sem jeito uma lata
Na ânsia duma nota ingrata

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

RISO OU CHORO


O seu rosto parece o começo do barulho de um bebê
E eu não sei dizer se é riso ou choro
Eu não sei dizer se eu fico ou corro
Eu não sei dizer se eu vivo ou morro

Eu só sei falar de todas as coisas que eu não sei dizer
Até poder gritar tão alto 
Até poder calar o peito

E eu não sei dizer se é defeito ou se é perfeito
Se só vou descobrir deitado no meu leito de morte

Ou depois?

Eu só vou tentando a própria sorte
Que eu não sei se é acaso ou destino
E cruzando o tempo velho
A verdade eu ilumino
Mais bebê fica o meu rosto de menino.



segunda-feira, 31 de julho de 2017

PRIMEIRA PESSOA


Eu te ignoro porque eu te conheço
Eu traço os limites que eu mesmo esqueço
Me visto de verso, sinto do avesso
Me sinto tão perverso quando visto gesso
Devoro o sucesso antes do começo
E eu mesmo nem reparo quando eu mesmo cresço
Só quando paro, olho e me reconheço.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

DEPENDE


Depende.
Depende do que?
Desprende.
Desprende de mim.
Esplêndido
Seria se:
Tivesse de pé,
Sem dedo nem ré,
Sem arre
Pendimento,
Pendência ou lamento,
Potência do momento,
Mas o processo é lento e...
Depende.

terça-feira, 2 de maio de 2017

PELE


Pele
Tapete tátil
Altamente volátil
De fácil acesso

Só te peço
Que pense antes do tato
Contato em processo
Que toque com cuidado

domingo, 2 de abril de 2017

TANGRAM


Quero discutir ideias abstratas
Sobre a pedra,
Concreta,
E já com ela armado
E com a mira certa
lançar uma hipótese
No vazio dos vasos
Para montar nos cacos
Um tangram de fatos
Ordenar acasos.

CIRCO NO DOMINGO

Desisventei minhas certezas
Derrubei as fortalezas
Atrasei as correntezas
Dos relógios

Montei o circo no domingo
Eu sou palhaço 
Eu sou ridículo
Que nem uma carta de amor

Eu vou entrar na gruta escura
Eu vou ser verbo e ser escuta
Mas, por favor, vem, me procura
Pra eu poder ser por você todo esse amor.

NÃO DESISTA DO SEU TESÃO


Não desista do seu tesão
Diz o pixo no coletivo
O princípio riscado à risca
O risco do risco impreciso

O destino é só condução
Pague o preço salgado, passagem
Mas não desista do seu tesão
Pra poder chegar no ponto: viagem.

quinta-feira, 30 de março de 2017

FILOSOFIA


Filho da maçã
E da serpente
Filho da vontade
E da semente
Da verdade plantada num canto da mente
Da semente do encanto que brota na gente
E nasce
Conhecimento
Pau pra toda obra
Cimento
Fogo que aquece mas queima
Conforto e desalento.
Mente prenha
Fogão a lenha
Cozinhando uma ideia, um dilema, um poema.
Pra raiar o sol                        
No nascer do dia
O filho
O fogo
O fim.
Filosofia.

terça-feira, 7 de março de 2017

AZUL DA COR DO MEU DELÍRIO


Azul da cor do meu delírio
A minha mente sobe aos céus
Pra quê chapéu se a consciência
Voa solta por aí

Azul da cor do meu delírio
O meu mergulho é aqui
No mais profundo inconsciente
Em minha mente eu molho o pé

Azul da cor do meu delírio
Qual seja o vento ou a maré
Viver o gosto delirante
De poder ver como se é


domingo, 5 de março de 2017

PASSATEMPO


Não consigo comer seu tempo na distância
Na irrelevância da ausência me como as tripas
Passatempo para o tempo da presença
Para comer seu tempo lento
Eu tanto tento
Meu tempo coelho
Tatuei a sua carne no espelho
Em pintura pura, crua e completa
Espelhei na sua carne tão desperta
Os meus anseios,
Tempo feio,
Ansiedade


CORTE


Um corte tão profundo que caiba todo o mundo dentro
Um mundo tão imundo que caiba um corte desatento.
Um corte é só um corte
A carne que é a morte
A faca é só a faca
E a mão que corta a carne fraca é só.
Nem por romance
Nem por poesia
Reforce a ideia do corte
Que corta a luz e o curso dos dias
Que transforma o peito quente em carne fria
Que encurta a cura, o riso e a alegria
Que não conforta
Não abre porta
Nem se suporta
Só vem
E corta.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

PARADOXO


Tudo e nada.
A espada cravada no peito e o próprio peito.
No leito de morte
O parto.
O sexo.
Num ato reflexo descubro que o outro sou eu.
Descubro que o outro sou Deus.
Ateu gritando namastê.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

FORCA


Minha forca e minha força andam juntas.
Corda no pescoço, corda vocal.
Nó na garganta, pula corda,
Passa mal.
Acorda, recorda,
Cordão umbilical.
Na grande corda,
Eu dentro ou fora,
Carnaval?
A cor da dor
De cor no peito.
A cor amor
Também, amarrada.
No acordo, em coro,
Das minhas próprias discordâncias,
Me encurto de mim em distâncias:
Minh'alma armada.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

CIDADE CINZA


O cuidado do jogo do meu corpo no mundo é um exercício de contato. 
Agora, nesse instante exato, faço um pacto com meu silêncio, e o meu vazio é stencil, mundo spray na cidade cinza.
A voz da verdade mingua e se transforma num
sussurro, muro calado. Meu pé minha verdade firma, sobe e desce ao chão, o mesmo chão, completamente diferente.
Sempre em frente, o meu verbo é minha rima. Ação e reação, nesse momento tudo é porta. Se minha fala o vento corta, esse meu mundo papel em branco. 
Meu muro, mundo branco, não cinza, num verso eu mancho.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

CARANGUEJO


Quero um pedaço de lua, com gosto de queijo, feito do seu leite do seu seio.
O seu querer sem receio, seu beijo.
Quero que me chame de casa e te fazer de morada,
Quero o seu cafuné de garra.
Quero sua carne macia, sem casca, pelada.
Minha vontade vira água em seu desejo,
Caranguejo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

OLHOS DE VIDRO



Meus ossos não são de vidro. Nem meus olhos vidrados no vidro do espelho. No espelho, eu. Duvido. Todo de vidro, assim, por inteiro. Sou ou viro? Apavorado me viro, vidraça quebrada. Vivo. O menino no espelho está vivendo a vida errada? A verdade envidraçada é um quadro. Me abro do avesso, me vejo no espelho. invertido. E logo me vem a voz, veloz. Me sussurra um conselho. Ordiv ed oãs oãn sosso suem. Crack.

NOSSA VOZ


Minha voz enche o peito e vaza
O meu peito, apertado, explode
Minha voz, que é vontade, grita
No meu grito, o meu canto pode

Pra trançar um novo discurso
Um novo percurso, história
Pra mudar o rumo do curso
Nosso conhecimento, memória

E, no meu canto, eu contemplo
Quem tanto tempo escondido
Sofrimento vira arte
Se cria e parte em novos sentidos

E, se eu falar, você responde?
Pra trocar, minha voz te acessa?
Grito, repito, você me ouve?
Pra dialogar, quem dita a regra?

É pra dizer eu tenho um sonho
É pra lutar risonho
Você reage ou só suporta?
A nossa voz, e vida, importa

E gritando os foras certos
Poder chegar mais perto
Nosso desejo imperativo
É grito coletivo!