quarta-feira, 25 de abril de 2018

CARPE DÍVIDA


Cruzes, raízes, correntes
Livros de história pesados
Genes, desgostos herdados
Museus, mausoléus, sobrenomes

Olhos dos retratos nas paredes
Olhos dos fantasmas nos retratos
Tradições fantasmas nos contratos
As_sombras, terras e jóias

O peso do passado caindo acelerado no vácuo do futuro é a tortura do presente, o momento inconsistente, pequenino e esmagado.

domingo, 1 de abril de 2018

A ALQUIMIA DO CHEIRO DOS MENINOS


Um cheiro veste bem uma roupa
Uma roupa veste uma pessoa, que tem um cheiro
A roupa, desvestida da pessoa que vestia
Veste ainda um cheiro

O aroma de algo vem sempre escondido em uma
bandeja de prata
Começa em interrogação e termina em memória
Inconsciente e volátil

O perfume de uma pessoa é uma mistura de  colônias, contextos, itens de higiene, hormônios e átomos de carbono
Inicia no labirinto e finda no aprendizado,  não na escapatória

Dois corpos desvestidos
Que não estão vestindo calças e não deveriam vestir vestidos
Vestem um ao outro
E no jogo de vestir a si mesmos
Vestem vozes, vazios e cheiros

Atmosfera que não é sua
Ferormônios que não são meus
Nosso. De não guardar no bolso
Na química da experiência
A alquimia do cheiro dos meninos




domingo, 25 de março de 2018

PEGA VARETAS


O rosto molhado e a cara vermelha.
A minha cara inchada,
A minha cara manchada,
Manchas de espinha e água.
Limpar os olhos de mágoa:
É questão de lente ou paisagem?

Me espeta com os espetos do meu pega varetas
De esferas de cristal.
Cristal lindo do meu choro mais molhado
Desequilíbrio em minhas espinhas,
Os meus olhos caem no lago
Mais profundo
E abissal. 

domingo, 7 de janeiro de 2018

ROSAS ANTENAS


Rosas farpadas
Isolam/
/protegem

Antenas alertas
Transmitem/
/recebem

Do alto da torre
(ao redor uma cerca viva)
Meus jardins e
Meus sistemas,
Minhas feridas e
Rosas antenas

Luneta em telacéu
Girassóis eclipsados
Coquetéis de anestesia
Pular corda com laços de enguia e 
Nas vias retratos e cacos.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

LIXO


Piso o pé no pedal do lixo
Como quem abre a geladeira
Sem saber o que quer dali
Depois de andar decidido a sala inteira
Como quem procura os óculos no quarto
Pra achá-los bem em cima da cabeça
Como quem bate a porta de casa
Sem celular, nem chave, nem carteira.

Eu e o lixo
Meu olho no olho dele
Fixo
E o pé no pedal do lixo
Sem propósito e vazio:
Então é isso!

Dou um salto em cima do lixo
E como um mutante elástico
Me encolho em um tamanho ínfimo
Pra com a tampa fechada
Tirar um cochilo acolchoado
Em lençóis de saco plástico.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

BRINCAR DE SER


Por que brincar de ser mulher
Quando eu posso ser uma onça, uma pedra, um peixe?
Um feixe de luz que atravessa a janela
Ou uma bela donzela inglesa do século passado
E até um viking viado navegando o Canal do Panamá?

Por que brincar de ser homem
Quando qualquer meia luz de lua cheia
Que cai por cima de mim
Me transforma em lobisomem drag queen?
E se não visto nenhuma fantasia
Só me resta a nudez escancarada
peluda e pelada?

Quem eu sou não sei quem fez
Quem vou ser não tem quem brinque
Vou fantasiar toda a minha nudez
Pra poder tomar uns drinks 
Em uma exposição censurada.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

SOLIDÃO


Mesmo na soma de todas presenças
Ainda te sinto no fundo do peito
E emerges veloz quando soam minhas perdas
E inventas tristezas
Belezas já murchas

Meu enlace de fibras é tecido poroso
Dele escapa
Odioso
Tudo que agarro e prendo
E se me desentendes da própria verdade
Eu mesmo me desinvento em suas armadilhas

Me desacompanhas na sua presença
E deitas extensa na porta de casa
E não se sai
E não se só
E não se se
Mas só se sabe de um só ser
Se sente solidão.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

SETE PALMOS


Eu te enterrei pensando que eu marcava
Naquele lugar o xis do mapa do tesouro
Eu te enterrei pensando que eu plantava
Em terra fértil uma semente que ensaia ser broto
Mas na verdade você era mina
Na terra envenenada dos meus pensamentos
Cavar fundação tão funda eu sei que foi difícil
E nunca deu em edifício
Esse é o meu tormento
Será que tudo que eu cavo no fim desova em cova?
Sete palmos trás da terra
Debaixo do chão
Eu te enterrei e eu sabia que enterrava    
Com o meu corpo lá no fundo em um abraço de caixão.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

TELACÉU


Celulares pontilhistas
Listas de mercado online
Lã de laços fracos, frouxos
Rosas, minhas antenas rijas
Giram em transla e rota e transe
Troncos sem raiz e ramos constam
Corpos de fibra óptica rara
Raso de poço fundo espelha
Pelos de se sentir o mundo cortam
Cores de corar o cosmo em coro
Cura de doenças de proveta
Gametas novos do velho fim.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

TIJOLOS NA LAJE DA LÍNGUA


A boca baba
palavra molhada
Mascada na boca
Água no feijão
A bola de meia
A bola do baba 
Embola um verbete
Sem ter confusão
No som do sotaque
O batum do batuque
Com mais d'um trambique
A sentença na mão
Os neologismos
São novos tijolos
Na laje da língua
Linguagem que pulsa
Tum
Tum 
Tão.