sexta-feira, 22 de junho de 2018

TEMPO


O tempo é trança que não afrouxa
O tempo é traste
E é triste o trouxa
Que faz troça desse troço estranho
Tal troço tamanho
Que não dá troco
Que é só troca
Constrói mas também destroça
Tranquilo ou tempestuoso
O tempo dita
Maldito ou ditoso
Na inconsistência e no contentamento
O tempo é um tiro lento
O tempo é tartaruga turbo
O tempo, direito ou torto
De trazer e trair o tudo
Se atraso ou se adianto
Manto tridimensional
Se for coberta é acalanto
Se me acoberta
Aperto e espanto
Mas de toda sorte
(E de toda morte)
O tempo é o tapete
O tempo é o trem
O tempo é a trilha.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

RIO


Eu quero o tempo de um rio comprido
E o seu barulho alto e tranquilo
Sua transparência
Água intensa e calma

Eu quero a paisagem de um rio extenso
Insinua imenso, mas nunca se esconde
Profundo e sinuoso, um rio cristal de banho
Eu quero um rio tamanho de diluir venenos

Eu não quero por menos do que movimento
O rio encontro, o rio confronto: sábia                                  [confluência
A ciência ancestral de um barco-rio serpente
Correndo o rio de virar mar no lar da                              [transcendência

segunda-feira, 28 de maio de 2018

ROSAS ROMÂNTICAS, ANTÚRIOS ESTRANHOS


 Eu plantei um jardim ao redor das minhas ausências. Rosas românticas e antúrios estranhos contornando os meus vazios como uma moldura rubra. Uma fronteira viva, que começou como desculpa para segurança, mas perdura como um monumento para o meu sofrimento. Caminho ao redor do poço regularmente, um hábito recorrente que já se tornou automático. Um vício do espírito.
 O choro vermelho das minhas pernas, o trauma aberto dos espinhos das flores, não pode mais ser separado da coloração das plantas. Atualmente ele as rega. Encharca. Paixão, Raiva e Luxo em um pigmento vibrante, exótico e inexorável.
 Vez em quando, em um cultivo de ódio e adoração, eu recito coisas bonitas, berro lamentos desesperados e brinco de mal me quer ao redor do buraco. Ouço o eco que ricocheteia em suas paredes, um acalanto no volume da autoimportância, um ode no timbre da solidão.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

TEMPLO


O meu corpo é um templo
O seu corpo é monumento
Meu no seu, um manifesto
Seu no meu, adoração

quarta-feira, 25 de abril de 2018

CARPE DÍVIDA


Cruzes, raízes, correntes
Livros de história pesados
Genes, desgostos herdados
Museus, mausoléus, sobrenomes

Olhos dos retratos nas paredes
Olhos dos fantasmas nos retratos
Tradições fantasmas nos contratos
As_sombras, terras e jóias

O peso do passado caindo acelerado no vácuo do futuro é a tortura do presente, o momento inconsistente, pequenino e esmagado.

domingo, 1 de abril de 2018

A ALQUIMIA DO CHEIRO DOS MENINOS


Um cheiro veste bem uma roupa
Uma roupa veste uma pessoa, que tem um cheiro
A roupa, desvestida da pessoa que vestia
Veste ainda um cheiro

O aroma de algo vem sempre escondido em uma
bandeja de prata
Começa em interrogação e termina em memória
Inconsciente e volátil

O perfume de uma pessoa é uma mistura de  colônias, contextos, itens de higiene, hormônios e átomos de carbono
Inicia no labirinto e finda no aprendizado,  não na escapatória

Dois corpos desvestidos
Que não estão vestindo calças e não deveriam vestir vestidos
Vestem um ao outro
E no jogo de vestir a si mesmos
Vestem vozes, vazios e cheiros

Atmosfera que não é sua
Ferormônios que não são meus
Nosso. De não guardar no bolso
Na química da experiência
A alquimia do cheiro dos meninos




domingo, 25 de março de 2018

PEGA VARETAS


O rosto molhado e a cara vermelha.
A minha cara inchada,
A minha cara manchada,
Manchas de espinha e água.
Limpar os olhos de mágoa:
É questão de lente ou paisagem?

Me espeta com os espetos do meu pega varetas
De esferas de cristal.
Cristal lindo do meu choro mais molhado
Desequilíbrio em minhas espinhas,
Os meus olhos caem no lago
Mais profundo
E abissal. 

domingo, 7 de janeiro de 2018

ROSAS ANTENAS


Rosas farpadas
Isolam/
/protegem

Antenas alertas
Transmitem/
/recebem

Do alto da torre
(ao redor uma cerca viva)
Meus jardins e
Meus sistemas,
Minhas feridas e
Rosas antenas

Luneta em telacéu
Girassóis eclipsados
Coquetéis de anestesia
Pular corda com laços de enguia e 
Nas vias retratos e cacos.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

LIXO


Piso o pé no pedal do lixo
Como quem abre a geladeira
Sem saber o que quer dali
Depois de andar decidido a sala inteira
Como quem procura os óculos no quarto
Pra achá-los bem em cima da cabeça
Como quem bate a porta de casa
Sem celular, nem chave, nem carteira.

Eu e o lixo
Meu olho no olho dele
Fixo
E o pé no pedal do lixo
Sem propósito e vazio:
Então é isso!

Dou um salto em cima do lixo
E como um mutante elástico
Me encolho em um tamanho ínfimo
Pra com a tampa fechada
Tirar um cochilo acolchoado
Em lençóis de saco plástico.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

BRINCAR DE SER


Por que brincar de ser mulher
Quando eu posso ser uma onça, uma pedra, um peixe?
Um feixe de luz que atravessa a janela
Ou uma bela donzela inglesa do século passado
E até um viking viado navegando o Canal do Panamá?

Por que brincar de ser homem
Quando qualquer meia luz de lua cheia
Que cai por cima de mim
Me transforma em lobisomem drag queen?
E se não visto nenhuma fantasia
Só me resta a nudez escancarada
peluda e pelada?

Quem eu sou não sei quem fez
Quem vou ser não tem quem brinque
Vou fantasiar toda a minha nudez
Pra poder tomar uns drinks 
Em uma exposição censurada.